38º Congresso do Andes-SN: um passo importante do feminismo classista

Por Qelli Rocha* / Unidade Classista Nacional

No dia 02 de fevereiro de 2019, durante seu 38º Congresso, o ANDES-SN aprovou – após 40 anos de história de lutas – a paridade de gênero para a composição de sua diretoria nacional. A decisão histórica, aprovada por maioria, determina que, no mínimo, seis dos onze cargos do bloco da presidência, secretaria e tesouraria, e que 50% de cada vice-presidência regional sejam ocupadas por mulheres. A resolução busca garantir, por meio da política de representação, uma mudança significativa nas relações sociais dentro do sindicato como contribuição para as mudanças estruturais da nossa sociedade.

Na sociedade capitalista burguesa patriarcal a construção das identidades das mulheres, bem como dos homens, tem partido das diferenças biológicas, estas fornecem subsídios para justificar a naturalização das distinções dos papéis sociais masculinos e femininos, que tem imposto às mulheres seu aprisionamento no espaço (doméstico) privado das relações sociais.

Estas relações sociais, comparecem no cotidiano de forma imediata como relações naturais, mascarando a ação da cultura sobre os grupos sociais, promovendo a transmutação de machos e fêmeas em homens e mulheres, bem como a construção dos “valores” do feminino e do masculino em cada momento histórico, o que inscreve mudanças estruturais nos ordenamentos sociais. São essas determinações culturais que orientam e definem os papéis e os significados do que seja masculino e feminino e não o seu destino biológico.

Neste sentido, compreender essas relações como históricas e determinadas, apreendidas a partir da categoria gênero, ajuda a vislumbrar uma nova perspectiva sobre a realidade social, também a compreender o confinamento da pessoa (mulher) ao espaço privado, acarretando sua invisibilidade, visto não ser percebida pelos outros, compelidas à carência de relevância social, invisibilidade e apagamento na história.

Desta forma, assim como as diferenciações biológicas justificaram a naturalização da distinção dos papéis sociais representados por homens e mulheres, levando-as à segregação e ao confinamento do espaço privado provocando sua invisibilidade, o sistema patriarcal, por sua vez, potencializou as relações de poder desempenhado pelo homem e a subjugação da mulher de modo a fomentar os estereótipos de “histeria” e “neurose”, recalcando e salientando a sua inferioridade intelectual e cognitiva, destarte, desistoricizando, a dependência emocional, social e econômica em relação ao homem, de modo a engessar seu aprisionamento ao espaço privado e o seu desígnio biológico reprodutivo e agorafobia política.

Superar o sistema patriarcal que se consubstancia nas relações capitalistas, machistas, racistas e heteronormativas, exige-nos enquanto corrente sindical – Unidade Classista – que constitui parte da diretoria do sindicato do ANDES-SN, e contribui para a construção deste, apontar como, dialeticamente, é importante a defesa de táticas que possam contribuir para a reorganização da classe trabalhadora.

Assim, compreendemos que a defesa da paridade de gênero nos auxilia no avançar desta tarefa, pois partirmos da compreensão da heterogeneidade da classe trabalhadora em que as mulheres figuram enquanto categoria expropriada. Essa expropriação se manifesta na desigualdade salarial que se expressa na disparidade salarial em que as mulheres recebem cerca de 30% a menos do que os homens no exercício da mesma função; na condição de dedicação aos exercícios e afazeres relacionados ao cuidado doméstico cerca de 3,7 horas à mais do que os homens, todo este cenário refletindo na ocupação de postos de trabalhos mais precarizados e em tempo parcial, as mulheres atuam 14,1% à mais do que os homens trabalhos de tempo parcial.

Dito isto, compreendemos o limite das políticas de representação, mas ratificamos sua potencialidade enquanto tática no processo dialético e contraditório no cenário das sociedades da luta de classes, visto que a estrutura da opressão e da expropriação das mulheres se fundamenta no sistema (patriarcal, capitalista, machista, heterossexista e racista) cuja peculiaridade da mulher se gesta na estrutura econômica da sociedade que fundamenta a organização da divisão do trabalho, distinguindo trabalho “produtivo” pago e trabalho doméstico “reprodutivo” não pago, permanecendo este como responsabilidade primária das mulheres.

Quanto à perspectiva do reconhecimento, gênero é compreendido como uma forma de distinção de status da sociedade, uma vez que o mesmo codifica padrões culturais e estruturais de interpretação e avaliação já disseminados, que são centrais na ordem de status como um todo. O androcentrismo é o padrão institucionalizado de valor cultural que valoriza os traços identificadores da masculinidade e, em contrapartida, desvaloriza tudo que estiver associado ao paradigma feminino, não se referindo exclusivamente às mulheres, sendo, então, esta, umas das características que incide sobre a injustiça de gênero, vez que a instituição destes enquadramentos androcêntricos promove verdadeiras clivagens sociais. Desse modo, a injustiça de gênero somente poderá ser reparada quando houver uma combinação de uma política de superação anti-imperialista e anti-capitalista.

É neste sentido que comemoramos e saudamos mais esta conquista histórica no ANDES-SN! Parabenizamos a diretoria e participantes do 38º Congresso, destacando a atuação de nossa militância da UC, bem como do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro – CFCAM – ao longo desse processo, e todos/as sindicalizados/as do ANDES-SN. Entendemos que as lutas feministas tem avançado nos últimos anos e isso deve estar refletido em um sindicato classista. Que esta vitória estimule outros sindicatos e movimentos sociais a também avançarem na lutas feministas, antipatriarcais e anticapitalistas, como parte do processo de reorganização da classe trabalhadora.

A revolução socialista será feminista ou não será!

Pelo poder popular!

 

*Qelli Rocha é militante do PCB, Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, Unidade Classista, 1ª vice-presidente do Andes-SN (gestão 2018-2020) e professora da UFMT.

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