Via: Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro – Natal/RN

Nós, feministas, sabemos bem que carregamos pesos a mais nesta sociedade. As mulheres da classe trabalhadora, principalmente as mulheres negras e a população LGBT fogem do padrão de indivíduo da sociedade burguesa; hétero, branco e detentor de propriedade. Na existência desse padrão – desse modelo a ser seguido, vivenciado, buscado, temos nossa diversidade, nossa individualidade tão nossa e tão universal, tolhida, violentada, censurada. Mas, de onde vem esse padrão? O que há por trás dele? Ele pode ser superado apenas com a educação?

Está mais do que em tempo do movimento feminista, tão importante e necessário a nós brasileiras que vivenciamos a crescente precarização das políticas sociais, o aumento da pobreza e da violência que em todas as suas expressões incide ostensivamente em nós, compreender as relações sociais que fundamentam e determinam a exploração e a opressão que vivenciamos diariamente. Que nossas avós e mães sofreram e que as futura gerações sofrerão enquanto existir o capitalismo racista hétero-patriarcal.

O feminismo classista é construído por uma consciência coletiva de que teoria e prática não se separam. Jamais. A nossa teoria, materialista, histórica e dialética que além de única compromissada com a luta da humanidade contra o capital é a que melhor se aproxima da realidade, complexa e dinâmica que vivemos, deve nortear todas as nossas ações, atividades, diálogos, reflexões, falas… o trabalho de base que precisamos realizar para que as mulheres, da cidade e do campo, mães, solteiras, religiosas, jovens, maduras, crianças, despertem a consciência de quem são, de seu potencial de enfrentamento e de quem são os reais inimigos das mulheres.

As mulheres precisam da teoria revolucionária para compreender que a propriedade privada, que tanto lutamos por sua superação, é uma relação social que permite a exploração de pessoas por outras pessoas, fundando assim a divisão social de classes. Os que produzem a riqueza e os outros que exploram os produtores e produtoras da riqueza.

As mulheres precisam da teoria revolucionária para compreender que a relação social que funda a sociedade burguesa, essa em que vivemos, é a relação do capital. Isso significa que nessa sociedade perdemos os meios e as possibilidades de produzir nosso sustento, nossa vida. Fomos obrigadas a vir para os centros urbanos vender nossa força de trabalho em Industrias, fábricas, empresas em troca de um salário sempre insuficiente para comprar e pagar tudo que precisamos, pois nessa sociedade tudo é mercadoria, nosso alimento, nossas roupas, moradia, saúde, lazer, conhecimento. Precisamos pagar por tudo. O mercado é um grande rei e nós somos todos súditos que a todo instante precisamos atirar-lhe nossas riquezas sem dó. A condição de trabalhadoras nos torna inimigas dos capitalistas que não hesitarão em promover a barbárie em nossas vidas se isso lhes trouxer riqueza e poder. A condição de trabalhadoras nos torna potencialmente revolucionárias.

As mulheres precisam compreender que existem relações sociais de sexo, que nada mais são do que relações que fundam e mantém a desigualdade entre homens e mulheres em todas as dimensões da vida. As relações sociais de sexo criam uma divisão sexual do trabalho e do poder em que se constituem atividades legitimadas como femininas e outras como masculinas, sendo essas “femininas” as mais precarizadas e desvalorizadas. Já pensou por que a enfermagem, o serviço social e a pedagogia são profissões majoritariamente femininas? E também de pouca valorização? A divisão sexual do trabalho designa como femininas profissões que sejam reconhecidas socialmente por sua vinculação ao cuidado e a educação que, por consequência, o patriarcado atribui como natural do ser mulher. A nós mulheres recaem a responsabilidade pelo cuidado e educação dos filhos que limita nosso tempo e nossas possibilidades de estudo, trabalho, lazer e organização política. Se legitima uma consciência social de subordinação da mulher ao homem como sua propriedade, tolhendo nossa independência e autonomia. E ainda, essas relações sociais obstaculizam nossa liberdade sexual, nos impondo a heterossexualidade como única orientação sexual aceita e moral e rejeitando outras identidades de sexo. A condição de ser mulher nessa sociedade nos torna potencialmente revolucionárias.

As mulheres precisam também compreender que existem relações sociais de raça e etnia que fundam e mantém a desigualdade entre negras/os e brancas/os. Essas relações sociais criam uma divisão racial do trabalho em que se constituem atividades legitimadas como brancas e outras desempenhadas por mulheres negras. Por que a profissão de empregada doméstica é desempenhada majoritariamente por mulheres negras? Por que são as mulheres negras que mais ocupam os trabalhos informais e mais precarizados? Por que os cargos e espaços de poder são majoritariamente ocupados por homens e brancos? O racismo e o colonialismo estruturam a dominação e opressão do povo negro, principalmente das mulheres negras e de periferia. Ainda que vejamos mais produtos para nossos cabelos crespos, mais negras como protagonistas de TV e mais discussões sobre racismo, o sol continua sem brilhar sobre nós. Essas relações possibilitam que as negras sejam as maiores vítimas de feminicídios e violências, sobretudo sexuais, físicas e obstétricas. São as que mais sentem o desemprego e todas as barbáries produzidas pelo capital em nossas vidas. A condição de ser negra nessa sociedade nos torna potencialmente revolucionárias!

As mulheres precisam do feminismo classista para compreender que capitalismo, patriarcado e racismo não se separam. São articulados. Um se estrutura e interage com o outro conformando uma realidade social de exploração combinando a opressão do sexo, da raça e da classe. O racismo e o patriarcado existem porque existe uma base material, a propriedade privada, que impõe concretamente a exploração. Esses sistemas conformam o modo capitalista de produzir nossa vida e determinam a vida das mulheres marcada pelo trabalho extensivo, intensivo e intermitente, pela violação de Direitos, pelas violências domésticas, sexuais, patrimonial, físicas, obstétricas e psicológicas sofridas. Pelo peso da responsabilização pelo cuidado da casa e dos filhos, pela aflição e desespero ao ver as condições de vida cada vez mais difíceis, o pão cada vez mais caro e o emprego cada vez mais distante.

O padrão do ser mulher, branca, doce, resignada não surge do nada. É produto de uma sociabilidade cujo norte é o lucro violento dos que comandam essa terra, oprimindo para isso todos que fogem ao gosto do capital. O que há por trás desse padrão é toda uma organização social destruindo a natureza e transformando toda a nossa riqueza humana, cores, cultos, saberes, culturas, gostos, traços, em desigualdades.

Ainda que a educação seja um elemento imprescindível ela por si só não tem poder de mudar uma sociedade. A educação na sociedade burguesa, inclusive não nos permite aprender nem mesmo nossa história e nosso papel como produtores do mundo humano. Não estudamos sobre África e nossa América, não discutimos sobre racismo ou patriarcado, não aprendemos o porquê de nossa condição. Não sabemos porque as mulheres são estupradas e trocadas como mercadorias e nem quando isso começou e não conhecemos nossos Direitos. Não aprendemos na escola que devemos lutar contra todo e qualquer ataque a nossa individualidade e humanidade.

Nossa condição só mudará quando nos tornamos conscientes de tudo o que o capital obstinadamente nos esconde e de como a política de conciliação de classes está fadada ao que é conveniente à burguesia. Quando nos organizarmos nas fileiras da luta por um mundo possível e tão urgente que precisa ser pensado e construído no presente. As mulheres precisam do feminismo classista para enfrentar as tantas e cotidianas agressões do capitalismo racista hétero-patriarcal enquanto negras, imigrantes, lésbicas, transexuais, mães… trabalhadoras que, como já nos disse a camarada Ana Montenegro – lutando por pão, terra e trabalho, sendo um país que tem isso, almejamos liberdade!

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