📣 Sobre a maternidade, o patriarcado e as mulheres sertanejas 📣
Texto: Ana Karen
Ilustração: Keyse Araújo

Ser mãe não deve ser nem um pouco fácil, principalmente em uma sociedade na qual o cuidado das crianças deve ser idealmente realizado dentro do formato das famílias burguesas, onde seu núcleo se organiza a partir da mãe, pai e filhos. Apesar da maior parte da classe trabalhadora não ter possibilidade de criar as crianças dessa forma – já que o trabalho é um imperativo para toda a classe e outros membros familiares ou externos geralmente fazem parte dessa educação – a cobrança pelo desenvolvimento e “sucesso” de um ser humano geralmente será cobrado dessa estrutura familiar, onde a responsabilidade por sua manutenção é jogada sobre a mulher, bem como a educação das crianças será majoritariamente cobrada das mães.

No sertão nordestino, onde ainda se impõe o coronelismo, onde a estrutura patriarcal é fortemente arraigada e o número de empregos são ínfimos em relação às capitais (geralmente localizadas no litoral), a responsabilidade pela a educação infantil é ainda mais centralizada sobre as mães. Apesar de haver mudanças nas gerações mais jovens, que não deixam de ter influências de culturas onde as mulheres tem mais autonomia – fruto das lutas históricas das comunistas, inclusive das conquistas na União Soviética e das lutas feministas – a maternidade ainda é uma imposição às mulheres e qualquer “desvio” que um ser humano possa cometer será culpa individual daquela que deve ser a principal cuidadora. Muitas precisam girar suas vidas para a maternidade, a fim de cumprir essa tarefa que deveria ser social – o desenvolvimento emocional, intelectual e cognitivo das crianças.

Depois que filhos e filhas crescem e tem suas próprias vidas, um novo sofrimento se apresenta, já que grande parte dessas mulheres não desenvolveram outras habilidades e aptidões e resumiram parte das suas vidas a esses cuidados. Ao chegarem nos períodos mais avançados da fase adulta ou na velhice e ao estarem atreladas somente a esse fazer, que já não precisa mais ser realizado, entram em sofrimento por não terem mais aqueles que eram objetos de seu trabalho e amor tão próximos. Na medicina – na qual tem – se o costume de nomear e categorizar quase tudo – chama – se esse momento de sofrimento e tristeza de Síndrome do Ninho Vazio. Posso dizer que não são raras as vezes que vejo mulheres passando por esse momento.

Outras delas passam a cuidar dos netos, principalmente nas famílias trabalhadoras com menores rendas, já que o estado não garante creche pública. Nessa relação, frequentemente novos conflitos geracionais se instalam, as avós querem criar as crianças com toda a rigorosidade que aprenderam e cuidaram de filhas e filhos, as mães se apresentam de forma mais aberta e menos rigorosa, mas aquela que não é o centro dos cuidados – já que enfrentam longas jornadas – e as crianças entram em contradições com a falta da figura da mãe (nesse formato de sociedade) e o rigor das avós. Claro que nem sempre é assim, mas acredito que há uma certa universalidade dessa condição entre parte da classe trabalhadora (estou falando a partir de observação empírica no sertão baiano e pelo trabalho realizado entre população periférica em uma região industrial, com grande imigração de diferentes regiões do Nordeste) .

Essa breve e pontual reflexão – que não surgiu de agora, mas não poderia deixar de ser feita a fim de não romantizar a maternidade – foi para falar de todas as mulheres mães (e mesmo não mães) trabalhadoras, que enfrentam cotidianamente as adversidades dessa sociedade exploradora, violenta e patriarcal e enfrentam múltiplas jornadas para exercer esse cuidado e/ou fazem dessa relação a principal razão do seu viver.

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